RON MUECK na Pinacoteca do Estado de São Paulo

A JCS Produções aguardou ansiosamente a abertura da exposição “Ron Mueck” na Pinacoteca do Estado de São Paulo e seus integrantes foram um dos primeiros a visitar esta grandiosa e impressionante exposição que conta com nove esculturas hiper-realistas!

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Preparamos um compacto desta exposição que, além de impressionar, nos remete à uma visão ilusionista transmitindo diversos questionamentos pessoais a serem feitos durante a visitação!


O Artista

Ron Mueck é conhecido por suas esculturas, algumas delas monumentais, de figuras humanas extremamente parecidas com a realidade. Sempre conviveu com técnicas de criação e animação de bonecos, mas nunca teve uma formação artística tradicional. Se dedicou à produção artística na década de 1990, após colaborar com sua sogra, a também artista Paula Rego, na produção de pequenas figuras para uma exposição dessa artista em Londres.

Ron Mueck é conhecido por utilizar diversos materiais e técnicas para criar suas esculturas, tais como fibra de vidro, resina, silicone e acrílico, a partir de um primeiro modelo em argila. Veias, unhas, pelos e outros detalhes são reproduzidos com perfeição. Não fosse pela alteração na escala, suas figuras poderiam ser confundidas com pessoas reais, mas elas são sempre maiores ou menores que uma pessoa real.


Obras


À DerivaDrift, 2009

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Em À Deriva, vemos um homem confortavelmente boiando. A figura representada, no entanto, não parece esboçar nenhuma reação ao que lhe acontece. O título da obra remete a estar sem rumo, entretanto a vestimenta e mesmo o colchão inflável que usa como meio de flutuação sugerem um ambiente controlado e até prazeroso.

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O ponto de vista do qual observamos uma imagem pode conduzir a um significado diferente. Perceba que nesta posição o observador é colocado como se estivesse vendo desde cima uma imensa piscina na qual o personagem flutua.


Máscara II – Mask II, 2001/2002

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Nesta escultura, Ron Mueck retrata seu próprio rosto em dimensões ampliadas. Podemos nos perguntar por que o artista, ao fazer sua própria imagem, teria escolhido realizar uma máscara, e não sua figura de corpo inteiro, como são quase todas as suas obras.

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Em uma declaração sobre este trabalho, Mueck disse: “a única maneira de eu realizar um fragmento seria eu fazer uma máscara, porque uma máscara é uma coisa inteira em si mesma. Eu não poderia fazer uma cabeça decapitada ou um meio corpo. Eu tenho de acreditar no objeto como uma coisa completa… Uma máscara já é completa”.


Mulher com Galhos – Woman with Sticks, 2009

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Esta figura nos faz pensar que se trata de personagens da dimensão do sonho, da fantasia, dos contos e lendas presentes em todas as culturas, embora não se possa identificá-las exatamente com nenhuma história em particular. O fato de a personagem estar nua dificulta ainda mais sua localização temporal.

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Perceba como, dependendo do ângulo do qual é vista, a figura parece nos olhar de volta, como se estivesse viva e consciente de nossa presença ao observá-la. Nesse sentido, esta escultura difere de grande parte das obras de Mueck, que em geral apresenta figuras solitárias, aparentemente concentradas em seu próprio mundo.

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Jovem Casal – Young Couple, 2013

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As esculturas representam figuras que parecem congeladas em uma situação banal do cotidiano, estimulando nossa imaginação a criar histórias sobre elas. Também é mobilizada nossa vontade de identificação, talvez pela perfeição da representação, nos fazendo questionar: em que suas vidas se assemelham com a minha?

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Na escultura Jovem Casal a narrativa que criamos apresenta contradições conforme nos deslocamos ao seu redor. A aparente tranquilidade do casal diante de nós parece ser desmentida pelo gesto que se vê às costas. Esse gesto feito quase às escondidas parece ter sido flagrado por nós, surpreendendo a intimidade da relação entre as figuras.

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Mulher com as compras – Woman with Shopping, 2013

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A representação de uma mulher com seu filho é tema recorrente em toda a história da arte, sendo sua forma mais conhecida a imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus.

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Muitas vezes os artistas procuraram por meio desse tema construir discursos morais e buscar aspectos de uma beleza ideal perfeita. Perceba, entretanto, que esse não é o caso desta escultura.IMG_0043

Aqui não há a idealização da beleza, nem temas virtuosos e moralizantes. Observe como nesta obra de Mueck não há a idealização do amor materno que costumamos ver nas representações desse tema. Atente para a expressão desgastada da mulher e sua aparente indiferença em relação à criança que a encara; veja também nas suas mãos, que não a tocam, ocupadas em carregar as compras.

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Natureza Morta – Still Life, 2009

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Esse gênero de pintura ganhou autonomia principalmente a partir do século XVI e abrange as representações de objetos inanimados, flores, frutas e alimentos, inclusive animais mortos, geralmente no ambiente doméstico.IMG_0048

Pode-se pensar, no caso desta obra, que a associação feita pelo artista é bastante literal, já que a escultura retrata um gigantesco frango morto tendo em seu pescoço a marca do corte que lhe tirou a vida. Aproveite para perceber as diferentes texturas da pele desse animal, bem como a flacidez dos músculos sem vida, bem distintos dos corpos humanos, muitas vezes tensos, produzidos pelo artista.


Juventude – Youth, 2009

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Muitas obras atingem o público pela carga psicológica e subjetiva que evocam mediante detalhes como um olhar, gestos ou expressões faciais por vezes misteriosos ou ambíguos.  Em Juventude, o gesto da figura nos confronta com uma tensão explícita, a memória de uma violência física recente que é a ferida sangrando nas costelas de um jovem negro. Embora solitária, a figura remete a uma relação hostil com o outro.IMG_0080

Seu rosto não parece expressar raiva, mas sim espanto. Mueck já declarou que costuma usar fotografias ou referências de livros para criar suas obras. Pode-se pensar, analisando esta obra, que talvez se trata de uma situação vista pelo artista, como mais uma notícia de violência urbana entre a juventude.IMG_0078

Observe, no entanto, que a ferida do jovem negro se localiza na mesma posição que a ferida de lança da figura de Jesus crucificado, já vista tantas vezes em nossa cultura ocidental cristã. Seria coincidência?


Homem em um Barco – Man in a Boat, 2002

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Temos uma cena minuciosa e misteriosa: um homem pequeno apresenta-se nu na proa de um barco em tamanho natural, de braços cruzados, olhando com preocupação seja lá o que for que vem pela frente. Observe como o barco em tamanho real influencia nossa percepção de sua pequena figura. O personagem olha para um lugar que só podemos imaginar, seu olhar não se cruz com o do público no espaço da exposição, e sua expressão parece transmitir a incerteza frente aos fatos ao seu redor.

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A sua expressão traduz a incerteza do rumo tomado: seja qual for seu destino, o homem é impotente para afetá-lo. Podemos ainda pensar neste barco como metáfora para a própria vida, na qual estaremos muitas vezes preocupados com nosso futuro, embora só nos reste observar e aguardar novos momentos de decisão.IMG_8699


Casal debaixo do Guarda-Sol – Couple under an Umbrella, 2013

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Qual seria a idade desse casal?

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Em rara declaração sobre suas obras, Mueck disse: “Eu nunca faço figuras em tamanho real, porque nunca me pareceu interessante. Nós conhecemos pessoas de tamanho real todos os dias”.

A escala desta escultura nos faz sentir pequenos e, ao mesmo tempo, nos assombra pela aparente humanidade do casal.


As obras de Ron Mueck têm se mostrado envolvente e extremamente populares, principalmente por seu grau de semelhança com o real. Essa ilusão nos faz por vezes acreditar que essas esculturas são mais do que meros objetos, despertando a necessidade de validarmos nossa humanidade!


SOBRE A EXPOSIÇÃO


PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO

20 de Novembro de 2014 à 22 de Fevereiro de 2015

Terça a domingo, das 10h às 18h, entrada até às 17h30

Quinta, das 10h às 22h, com entrada gratuita a partir das 17h.

Censura Livre


RON MUECK

Curadoria: Hervé Chandès e Grazia Quaroni

Fotos: Jonathan Carias e Silvia Manoela – JCS Produções

Texto das obras: Tatiane Gusmão e Mila Chiovatto

Exposição criada por iniciativa da Foundation Cartier pour L’art Contemporain

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